Sem dúvida que eu jamais serei escolhido para segurar a alça do caixão do Bolinha. Não que eu seja um fraco de pernas ou braços, mas é o coração ou a covardia. Gostava do Bolinha. Era bem mais gordo que eu. Acho que essa característica lhe dava, do seu ponto de vista, um certo ar de superioridade e do meu, de inferioridade. Claro, eu vivia fazendo dieta e ele não. Quando eu emagrecia, me sentia por cima e ele mais por cima ainda. Como ele andava com as costas ligeiramente curvadas para trás, por causa da barriga, parecia ser arrogante. Compensava com um sorriso constante, que mais parecia uma máscara sincera.
Vivia cercado de gordos. Gordos alegres, comilões, sacanas, prontos a abdicar da vida por uma boa feijoada.
O seu corpo seguramente não está impregnado das coisas não ditas ou dos amores reprimidos. Nesse quesito, o caixão parecerá leve.
Mas acho que esse não-peso será compensado pelos resíduos das vinte balas calibre 38 que atiraram nele.
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